A NBA está sem saída com Kawhi Leonard e Clippers
Após quase um ano, liga segue sem uma decisão sobre investigação de pagamentos ao craque

O caso dos supostos pagamentos ilegais do Los Angeles Clippers a Kawhi Leonard pode ser um divisor de águas na NBA. Afinal, é um dos raros momentos em que a liga tem a chance de provar que a sua “gincana de bilionários” nos bastidores tem regras mesmo. Punir quem trapaceia o sistema da folha salarial é importante demais, pois, na era dos aprons, todos os times estão sofrendo para jogar dentro da lei.
Só que, depois de quase um ano de investigação, dá para dizer que a NBA já errou. A gente viu isso nessa terça-feira, com o relato da ESPN de que não foram encontradas evidências conclusivas de fraudes nas ações do time. A liga negou a notícia, mas, na verdade, isso tanto faz. A demora para concluir a investigação criou um julgamento público que pressiona com a sua ânsia por castigo.
O bolo de aniversário do (lento) processo de pesquisa do escritório de advocacia que foi contratado para esse fim está quase pronto. E, com isso, todo mundo teve tempo para entender a situação em torno do Clippers e Kawhi Leonard. Já deu tempo, aliás, até para o jornalista Pablo Torre ganhar um Pulitzer pelo seu trabalho de apuração.
Resumo rápido
- Investigação da NBA sobre Kawhi Leonard e o Clippers está para completar um ano.
- Demora por um resultado atrapalha a integridade do processo e aumenta suspeitas.
- Ânsia de “justiça” e punição ao redor da liga deixa Adam Silver em posição difícil.
- Não há mais como a NBA emplacar uma solução amigável ou branda para o caso.
- Os rumos do caso são o símbolo da decadência do trabalho do comissário da liga.
A demora armou o tribunal do grande público. Que é como o julgamento de uma bruxa na idade média, por exemplo. Todos entram culpados e, em síntese, a corte é só uma encenação. A justiça está na punição. Portanto, considerar alguém inocente é “dar em pizza”. Não que isso esteja errado, mas é assim que vai ser.
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Batom na cueca
A NBA, para resumir, trabalha para saber se o Clippers está envolvido com pagamentos de empresas terceiras para Kawhi Leonard por serviços que não existiram. Não dá para entender, a princípio, qual foi a contrapartida do astro para esses aportes milionários. E todas as empresas, de certa forma, teriam relação com a franquia. O dono da franquia, Steve Ballmer, era investidor direto da principal delas: a Aspiration.
Segundo Baxter Holmes, da ESPN, a liga sabe que o caso é sério e pode servir como um precedente perigoso. Por isso, conduz a investigação com o muito cuidado e vontade de ser justa. “Eu acho que a NBA, antes de tudo, quer fazer o certo nessa história. Acertar. Adam Silver, em particular, quer que o processo termine como um exemplo de justiça, transparência e assertividade”, contou o jornalista.
O problema é que, depois de quase um ano de investigação, parece claro que a NBA não vai encontrar o seu tão sonhado “batom na cueca”. Ninguém vai achar a assinatura de Ballmer com caneta de ouro em um cheque ou contrato sem explicação. Nós estamos falando, afinal, de profissionais aqui. Certamente, se cometesse esse tipo de desleixo, ele não seria um dos homens mais ricos do mundo.
Mas, aí, a gente caí em outro problema. É aquela história: um bom golpe é aquele que não deixa rastros. Logo, a falta de rastros já não significa que não houve golpe.
Correr riscos
Então, eu acho que não tem jeito: a NBA vai ter que correr riscos aqui e tomar decisões mais difíceis. Terá que correr o risco de não ser tão “justa” quanto gostaria, pois temos rastros fortes demais para se ignorar. É preciso ser firme para impedir que casos assim não se tornem mais comuns. E, acima de tudo, o público e a imprensa não vão aceitar que a história acabe assim.
A liga não pode agir como uma pessoa que quer apagar as pegadas de um dinossauro em um beco. O piso vai estar limpo, mas é só olhar para os lados e verá a destruição.
E, aliás, os indícios vão até além do episódio em si só. Quem são se lembra do que se falou sobre Dennis Robertson, o tio de Leonard, durante a agência livre do ala? Na época, vários jornalistas noticiaram que ele fez pedidos absurdos e fora das regras da liga para os times interessados no sobrinho. Pediu dinheiro por fora e até participação acionária nas franquias.
Há muita coisa que se interliga, no fim das contas, para apontar que houve algo errado nessa história. Da parte de Leonard, a princípio, dá para dizer que os problemas estão claros. Ele recebeu o dinheiro e isso é um fato. A questão, como já disse antes, é ligar os pagamentos ao comando do Clippers.
Dano colateral
Eu entendo que a NBA, enquanto negócio, esteja com o “pé atrás” em punir Ballmer sem provas mais substanciais. Ou até com comprovação, na verdade. Ele não é só o dono mais rico da liga, mas um homem cujo patrimônio quase soma o dos outros 29 mandatários. Especula-se que, em um rompante, teria condições de comprar todas as franquias da NBA.
Mas a questão vai um pouco além de dinheiro: Ballmer é um ativo da liga porque o seu comportamento também o faz assim. Ele é o que Mark Cuban era até alguns anos, no Dallas Mavericks: um dono participativo e dedicado, que está em todas as partidas e ajuda a vender a liga no dia a dia. É um “garoto-propaganda” para os magnatas que querem investir, assim como os jogadores são o chamariz dos fãs.
Um parceiro de negócios assim é muito valioso, em particular, no momento que parece viver a NBA. As duas franquias mais tradicionais da liga foram vendidas três vezes nos últimos dois anos. Nunca se negociou equipes com tanta facilidade, pois a impressão é que se aproximam de um investimento como qualquer outro. Ballmer, nesse sentido, virou um símbolo de estabilidade.
Transformá-lo em um “dano colateral” ou um exemplo, por isso, não é um bom negócio para a NBA. Especialmente, sem provas consistentes – o que pode abrir margem para processos futuros. Tirar alguém assim do seu lado é um preço alto a pagar pela sanha de justiça do público ou a vontade de mostrar serviço.
E o Kawhi?
Se a NBA não tem provas para punir o Clippers, Kawhi Leonard parece ser outra história. É o que disse antes: o recebimento de milhões sem prestar serviços de empresas ligadas à equipe é um fato. Esse é o ponto crucial que embasa as investigações. A liga não tem, nesse caso, o ônus da prova. Mas tudo se complica porque puni-lo vai trazer a Associação dos Jogadores para o centro da disputa.
A NBPA, de certa forma, tem sido um órgão engraçado nos últimos anos. Depois de ter feito um trabalho patético em nome da classe na negociação do atual acordo coletivo de trabalho da liga, passou a agir como um tresloucado. Comprou todo e qualquer barulho dos atletas para, com isso, mostrar serviço. E, obviamente, já disse que vai se meter na causa se Leonard estiver em perigo.
Vai conseguir salvá-lo? Eu não sei, mas o sindicato acabou de garantir que Terry Rozier recebesse cada centavo do seu contrato mesmo sem jogar enquanto estava no meio de uma investigação federal. Não dá para duvidar de nada.
Outra questão é que qualquer punição ao astro vai punir o Clippers também. Suspendê-lo ou cancelar o seu contrato, por exemplo, acabam com a troca que os angelinos já fecharam com o Toronto Raptors. Aliás, isso vai ser (muito) mais danoso ao time do que ao próprio jogador. A equipe perdeu o seu maior ativo do elenco. O jogador pode assinar outro contrato por aí – agora ou ao fim da suspensão – e vida que segue.
Negociação
Uma questão que chamou a atenção na matéria da ESPN é que o Clippers e Ballmer já estariam em uma “negociação” com a NBA sobre a punição. Jornalistas e torcedores ficaram em alerta com isso. Afinal, quem é inocente não negocia a sua sentença. E quem é culpado não tem o direito de fazê-lo também. Mas, para ser sincero, eu não acho tão absurdo assim diante dos fatos.
Para mim, isso funciona como o réu que negocia para receber uma pena menor com a admissão da culpa. Ou diminuir as acusações. Ballmer, afinal, também deve entender esse cenário complexo e como vai ser difícil sair dessa história ileso.
A matéria também ventila a chance do dono do Clippers ser punido por outro motivo, uma vez que não há provas de pagamentos ilegais vindos dele. Seria algum tipo de punição por causa da falha de supervisão em contratos de patrocínio entre os seus atletas e empresas terceirizadas. Nesse caso, não importa se estamos falando de prestadores de serviço, patrocinadores ou meras coligadas.
Eu acho que esse seria um caminho possível se a NBA não tivesse levado tanto tempo em sua investigação. Nós já sabemos detalhes demais. Isso já não é o bastante nem para o público e, talvez, nem para manter o respeito dentro da própria liga.
Precedente
O grande risco que a liga corre se “der em pizza”, no entanto, não está junto à opinião pública. É claro que isso não vai ajudar, mas, em geral, os fãs saltam de polêmica em polêmica na offseason. E, assim que começam os jogos, isso vira história. “Lembra da vez que a NBA não pegou pesado com o Clippers e Kawhi Leonard?”. A questão é o resto da liga. Adam Silver está diante de uma questão que cria precedente.
A verdade é que a NBA inteira está de olho nessa questão atrás de uma resposta. E, se ela for branda, a mensagem é permissiva. Pode fazer qualquer coisa e, se descobrirem, não vai ser tão ruim. Segundo Chris Mannix, da revista Sports Illustrated, esse é o grande drama em torno da investigação.
“A questão nos bastidores é se a punição vai ser dura o bastante na visão do resto da liga. Afinal, todos os outros 29 times estão na audiência agora. Vários dirigentes me disseram que, se o Clippers não tomar mais do que um ‘tapa na mão’, pode iniciar a temporada de falcatruas. Uma multa e duas escolhas de segunda rodada é um risco aceitável para ter a chance de contratar alguém como Kawhi”, explicou o jornalista.
Como disse lá atrás, esse pode ser um divisor de águas. Mas, a esta altura, não existe nenhum benefício para a liga nessa história. É só tentar evitar o pior: uma crise de credibilidade interna que não houve, talvez, nesse século.
Sem saída
É curioso, de certa forma, que o escândalo de Kawhi Leonard coloque o Clippers na mira da NBA. Afinal, a equipe angelina foi quem alçou Adam Silver a melhor comissário das grandes ligas dos EUA. Ele assumiu o caso de Donald Sterling com só dois meses no comando da liga e teve uma postura impassível. O banimento do antigo dono da franquia criou uma aura de dirigente diferente em torno dele.
Mas, desde então, o seu trabalho virou um grande balcão de negócios. A preocupação passou a aumentar as verbas da liga, enquanto a questão disciplinar ficou em segundo plano. Dá para dizer que o seu grande legado, por enquanto, são firulas competitivas como o play-in e a Copa NBA. Será que o comissário perdeu a habilidade de lidar com questões sérias, que exigem posições duras e firmes?
Esse caso, no fim das contas, é a imagem perfeita da decadência do seu trabalho à frente da liga.
A NBA está sem saída, pois não há resposta perfeita aqui. É preciso entregar culpados, mesmo que o crime não esteja claro. E é preciso entregar as punições certas, que atendam ao gosto de justiça de todos enquanto não “queima pontes” com pessoas muitos importantes. Eu tenho dúvidas se Silver ainda tem capacidade para ser a “Red Panda”, que vai equilibrar todos esses pratos.
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