Amar’e Stoudemire entrou no Hall da Fama e Blake Griffin não?

Ricardo Stabolito Junior avalia dois dos principais casos analisados pelo Naismith Memorial em 2026

amar'e stoudemire blake griffin Fonte: Reprodução / X

Não deixa de ser icônico que Amar’e Stoudemire e Blake Griffin tenham sido elegíveis ao Hall da Fama pela primeira vez no mesmo ano. Os dois astros, afinal, têm carreiras bem parecidas. Na verdade, de certa forma, são até idênticas demais. Se igualam não só em números e feitos, mas também em história na NBA. É muito raro ver casos tão semelhantes “coexistirem” em uma mesma classe.

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Outra questão, no entanto, torna tudo mais estranho: só um deles foi eleito pelo comitê de honra do Naismith Memorial.

Amar’e Stoudemire entrou no templo máximo do basquete como membro da classe de 2026. Enquanto isso, Blake Griffin vai ter que esperar mais um ano. Não foi escolhido, aliás, na classe mais fraca que me lembro em termos de reconhecimento à NBA. E não vou mentir: isso é quase impossível de explicar de uma forma lógica, tangível.

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Gêmeos

A eleição do Hall da Fama é uma análise de currículos, acima de tudo. É sobre o que um jogador fez e conquistou – ou não. A gente começa a avaliação de Blake Griffin e Amar’e Stoudemire pelo fato de que ambos não foram campeões da NBA. É provável que, se tivessem um troféu Larry O’Brien – mesmo como segunda referência de seus times –, ambos seriam seleções automáticas.

Mas a ausência de títulos é só a primeira semelhança do caso dos dois. Eles iniciaram as carreiras com o prêmio de calouro do ano em suas estreias. E, em seguida, foram seis vezes all-stars e selecionados cinco vezes para um dos quintetos ideais da liga. É isso mesmo: a exata mesma quantidade das duas. Então, vamos nos aprofundar nesses dados para achar as diferenças.

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Griffin foi um de só dois novatos desse século a serem eleitos para o All-Star Game. O outro, para quem não lembra, é Yao Ming. As suas cinco seleções All-NBA, no entanto, têm “menor qualidade”: apareceu três vezes no segundo time e duas no terceiro. Digo isso porque Stoudemire esteve em um quinteto ideal da liga (2007) e quatro vezes em segundos times.

Stoudemire terminou quatro vezes no TOP 10 da eleição de MVP da liga. O seu melhor resultado, no entanto, foi uma sexta colocação e acabou atrás de um colega de equipe (Steve Nash) em duas ocasiões. Griffin ficou três vezes entre os dez mais valiosos da liga, mas teve uma terceira posição geral em 2014. Só não foi eleito para o quinteto ideal daquela temporada, aliás, porque os dois primeiros também eram alas.

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Ou seja, são currículos quase “gêmeos” mesmo. Só diferem nas nuances.

Números

Em termos estatísticos, a princípio, Amar’e Stoudemire e Blake Griffin – para variar – carregam marcas semelhantes demais. O primeiro tem números absolutos melhores, pois atuou mais tempo na liga. Com isso, fez mais jogos: disputou uma temporada a mais, que resultou em 81 partidas extras na carreira. Mas, em geral, as médias dão (leve) vantagem ao segundo.

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Números totais
X Pontos Rebotes Assistências Roubadas Tocos Turnovers FG% 3PT%
Stoudemire 15994 6632 105o 636 1050 1953 53,7 23,6
Griffin 14513 6109 3055 626 360 1732 49,3 32,8
Médias por partida
X Temporadas Jogos Pontos Rebotes Assistências Roubadas Tocos Turnovers
Stoudemire 14 846 18,9 7,8 1,2 0,75 1,24 2,31
Griffin 13 765 19,0 8,0 4,0 0,82 0,47 2,26

Eu até poderia tentar trazer estatísticas avançadas para entender o impacto de ambos. Mas, aqui, não há motivo para fazer por um motivo simples: duvido que o comitê de honra do Hall da Fama levou isso em conta. Os seus 24 membros – que ninguém sabe quem são, aliás – já deu provas de que não busca esse tipo de detalhismo.

Pode-se dizer que há quatro grandes diferenças entre os dois atletas a partir das duas tabelas. Stoudemire tem uma vantagem expressiva em aproveitamento de arremessos de quadra e tocos. Isso não é uma surpresa porque, apesar de ser ala-pivô de origem, atuou bastante como pivô na carreira. Ocupou a posição, muitas vezes, nas formações leves e “espaçadas” do Phoenix Suns de Mike D’Antoni.

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Griffin nunca teve esse privilégio por atuar ao lado de DeAndre Jordan o tempo inteiro no Los Angeles Clippers. Mas ele possui uma vantagem estatística muito grande em relação ao outro ala-pivô quando o assunto são assistências e índice de conversão de arremessos de três pontos.

Ainda assim, vejam os outros quesitos: tudo é muito parecido.

Trajetória

Mais do que feitos e conquistas, Amar’e Stoudemire e Blake Griffin tiveram trajetórias na carreira bem parecidas. Eu diria que iguais, em um panorama mais geral. Ambos foram alas-pivôs de impacto imediato que marcaram um período de ascensão dos seus times. Mas, infelizmente, as suas equipes nunca chegaram ao título. Ficaram marcadas, mais do que isso, pelas derrotas nos playoffs.

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É preciso ressaltar que, na passagem dos atletas, os resultados do Suns foram bem mais expressivos do que os Clippers. Os seus fracassos, certamente, tiveram dimensões um tanto diferentes. O Phoenix dos sete segundos ou menos chegou a três finais do Oeste, mas teve o San Antonio Spurs como algoz constante. O “Lob City” angelino, por sua vez, nem chegou à decisão de conferência e se tornou conhecido por seus fiascos.

No entanto, você também deve pesar o cenário que os dois encontraram. O Suns, antes do draft de 2002, teve a sua primeira campanha fora da pós-temporada em 14 anos. O Clippers, enquanto isso, só chegou aos playoffs uma vez nos 12 anos pré-draft de 2009. O nível de “transformação” que eles trouxeram, então, foi muito diferente.

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Outra semelhança entre ambos foi como as lesões comprometeram as suas carreiras. A quantidade de temporadas e jogos disputados citados antes, nesse sentido, é a maior prova de como foram limitados. Dá para dizer que a derrocada de Stoudemire e Griffin, aliás, aconteceu no exato mesmo ponto: a virada da nona para a décima temporada. É só ver as médias de suas carreiras.

Declínio

Talvez, um dos pontos comuns mais curiosos em comum entre os dois astros foi o ponto em que começaram o declínio da carreira. Ambos acabavam de trocar de time ao chegar à nona temporada na liga e viveram um dos seus melhores momentos individuais. Blake Griffin (Detroit Pistons) e Amar’e Stoudemire (New York Knicks) tiveram campanhas ótimas de estreia em suas novas equipes.

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E, então, as lesões voltaram com tudo. E os dois não atuaram mais do que cinco anos na NBA. Passaram por mais dois times cada antes de se aposentarem da liga. Mas é preciso ressaltar que essas aposentadorias foram diferentes também.

Stoudemire ficou sem mercado na NBA por causa da queda da sua condição atlética. Os seus últimos dois anos não foram legais e, com isso, as ofertas simplesmente pararam. Então, passou a rodar o mundo. Ainda jogou mais quatro anos entre a China e Israel, mas é seguro dizer que isso não tem peso nenhum para o Naismith Memorial. Ficaria surpreso se os votantes dissessem que lembram disso.

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Por outro lado, Griffin resolveu se aposentar com mercado na NBA. O Boston Celtics queria a sua renovação e até “guardou” uma vaga em seu elenco para o retorno do ala-pivô. Ele se adaptou muito melhor, certamente, ao declínio físico do que Amar’e. E, por isso, foi um jogador bem mais útil nesse fim de carreira. Parou porque estava cansado de sentir dor com 35 anos recém-completos.

Quem foi melhor?

Se tem uma coisa que eu notei enquanto pesquisava na internet é que essa comparação é difícil. É quase uma questão de preferência mesmo, uma vez que os números e feitos são tão parelhos. No entanto, para mim, não é tão complicado assim. Do ponto de vista técnico, Blake Griffin foi um jogador melhor do que Amar’e Stoudemire. E não tenho muitas dúvidas disso.

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Ambos foram grandes finalizadores e reboteiros, certamente. Mas o ídolo do Clippers foi um atleta bem mais capaz com a bola nas mãos. Um passador e condutor de bola muito superior. Tinha mais alcance no arremesso, apesar do ícone do Suns ter sido ótimo na média distância. Além disso, como o bom point forward que virou, dependia menos da condição atlética e cometia menos turnovers.

Alguém vai dizer que Stoudemire era um melhor defensor por causa da média de tocos. Mas isso “mascara” um atleta que era, na verdade, até pouco esforçado na marcação. Se você viu os dois em quadra, eu duvido bastante que ache que ele era um melhor defensor do que Griffin.

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O que você pode dizer, sim, é que Stoudemire tem atuações mais marcantes durante a carreira. Era um jogador mais feroz e, por isso, mais marcante em nossa memória. Ele me lembrava, no início de carreira, o jovem Mike Tyson: entrava no ringue como um animal saído da jaula. Ambos eram explosivos e agressivos, mas quem viu os dois em quadra sabe que não eram iguais.

Griffin nunca teve um desempenho em playoffs, por exemplo, como o seu “gêmeo” fez na série contra o Spurs em 2005. Anotou 37,0 pontos e 9,8 rebotes, enquanto acertou 55% dos seus arremessos de quadra, contra os futuros campeões nas finais do Oeste. Ninguém menos do que Tim Duncan não conseguiu pará-lo.

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Diferenças

Mas é claro que há diferenças substanciais nos casos e currículos de ambos. Amar’e Stoudemire possui duas vantagens nessa comparação, por exemplo. No entanto, não sei se ambas pesam tanto quanto poderiam. A primeira delas é ter uma medalha olímpica: ele estava na seleção dos EUA que ficou com o bronze em Atenas-2004. Seria uma grande honra em qualquer país, mas é um símbolo de fracasso para o norte-americano.

Talvez, nesse sentido, a vantagem seja defender o Team USA. O ex-jogador do Suns fez parte do programa em algum momento, por mais que não tenha sido uma vitória. Blake Griffin nunca disputou uma competição pela seleção. Além disso, Stoudemire tem a sua camisa aposentada pelo Suns. Blake vai ter o número retirado no Clippers em breve, mas ainda não aconteceu. E, se não aconteceu, não está no currículo.

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Mas a diferença em favor de Griffin na comparação é muito mais significativa: a carreira universitária, que só o ex-atleta do Clippers teve. Ele foi incrível em seus dois anos pela Universidade de Oklahoma: comandou o programa ao Torneio da NCAA em ambos, com uma classificação para o Elite 8. Foi eleito o melhor jogador da temporada da NCAA em 2009 e, assim, chegou à primeira escolha do draft.

Nem todo mundo sabe, mas o basquete universitário tem um peso grande para o Hall da Fama de Springfield. Técnicos de grandes programas são eleitos todos os anos. Nesse ano, Mark Few entrou. E é o que credencia um ex-jogador como Grant Hill a ter sido eleito no primeiro ano de elegibilidade pelo Naismith Memorial.

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Como explicar?

Visto tudo isso, é complicado entender a coerência na eleição de Amar’e Stoudemire e Blake Griffin não ter o mesmo reconhecimento. Eu diria que, se só um dos dois fosse entrar, deveria ser o segundo. Até porque, segundo uma pesquisa minha, a não aprovação do ícone do Clippers marca um ocorrido inédito na história do Hall da Fama de Springfield.

Griffin é o primeiro atleta a ter o prêmio melhor jogador da temporada da NCAA, cinco eleições como all-star e cinco seleções para um dos quintetos ideais da liga e não ser um first ballot. Ou seja, não ser eleito pelo Naismith Memorial logo em seu primeiro ano elegível.

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Então, como se explica? Até consultei o meu amigo Vitor Camargo, autor do livro “Era de Gigantes”, para traçar teorias.

Chegamos a dois pontos. O primeiro é os times a que estão atrelados. O Suns dos sete minutos ou menos foi muito cobrado por não vencer em sua época. Mas, com o passar do tempo, ganhou ares de equipe revolucionária. “Lob City”, por sua vez, segue como um tipo de folclore e símbolo de fracasso. Até porque não passou tempo suficiente para algum tipo de revisionismo.

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Aliás, aí está o segundo motivo: o tempo e a memória afetiva. O Suns e Stoudemire ganharam simpatia porque viraram uma lembrança boa com o avanço dos anos. As coisas boas, afinal, são aquelas que mais ficam na memória. O Clippers de Griffin ainda está muito recente e, com isso, uma imagem derrotada continua. Isso vai mudar, nem que seja um pouco, quanto mais a gente se distanciar desses tempos.

Essa linha de pensamento é injusta: tem mais a ver com os contextos em que ambos estavam do que mérito, currículo e/ou excelência técnica. Mas é assim que a nossa mente funciona.

Conclusão

É claro que a minha posição não é uma lei. Então, não vou dizer aqui que você não pode discordar que Blake Griffin foi melhor do que Amar’e Stoudemire. Mas digo que explicar eleger um para o Hall da Fama e deixar o outro de fora é difícil para mim. Em particular, eleger o segundo e deixar de fora o primeiro. Ao mesmo tempo, é só mais um caso em um Naismith Memorial que segue obscuro e pouco transparente em 2026.

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Nós não sabemos quem são os integrantes dos comitês de honra e especiais, a não ser que são notáveis do basquete. Ou seja, o mínimo para estar nessa posição. Os critérios são voláteis e inexplicáveis. A redução do período entre a aposentadoria do jogador e o início de sua elegibilidade, além disso, dissipou o tempo para que um atleta receba a devida avaliação pelo seu legado.

Mas, no fim das contas, esse foi só um absurdo de uma classe muito fraca para a NBA. Stoudemire foi o único ex-jogador da liga eleito. E isso ocorreu por causa de uma coisa que, sinceramente, nunca havia visto: o comitê de honra parece ter “barrado” a escolha direta de Marques Johnson para o Hall pelo comitê dos veteranos.

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Enfim, não dá para explicar.

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Escrito por:

Jornalista, engenheiro de produção, acadêmico, cinéfilo, mestre pokémon e esotérico fajuto. Trinta e não importa aninhos. Contato: [email protected]

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