“Starting 5” – Qual é o valor do acesso aos jogadores da NBA?

O que deu errado em série da Netflix sobre astros da liga, cancelada após duas temporadas?

nba starting 5 jogadores Fonte: Divulgação / Netflix

A Netflix vendeu a série “Starting 5” como uma chance nunca vista de acompanhar os jogadores da NBA durante uma temporada. Isso é algo de valor, certamente. Mas não teve apelo em quem mais deveria. A série foi cancelada depois de duas temporadas e você não vê comoção por aí em torno disso. Especula-se que a gigante do streaming, aliás, nem vai fazer um anúncio oficial do seu fim.

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A falta de comoção não surpreende, pois o principal motivo do fim teria sido a audiência baixa. Mas é mais do que isso: a produção nunca chegou nem perto de pautar qualquer discussão sobre a liga. Dá para contar nos dedos, por exemplo, o número de notícias do Jumper Brasil que vieram dos seus capítulos. A notícia do cancelamento não foi uma surpresa para ninguém.

Mas, no fim das contas, o que isso significa? Hoje, será que há valor realmente em ter acesso aos jogadores da NBA hoje?

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Acessível

A discussão em torno de “Starting 5”, a princípio, reside no fato de que ter acesso aos jogadores da NBA é uma ideia que mudou. Atletas sempre foram celebridades, antes de tudo. Mas elas deixaram de ser figuras míticas vivendo em um pedestal que nunca vai ser alcançado pelo público. Ser acessível não é mais só estar perto, mas tentar captar algo diferente.

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Isso ocorre porque nunca tivemos tantos meios de proximidade com os nossos ídolos. Assistimos a tantos jogos quanto em qualquer outra época. Além disso, as redes sociais – e vale para figuras públicas de todas as áreas – nos permitem estar em contato com muitos deles. Mais do que isso, com as suas postagens, eles nos trazem para dentro de seus dias e rotinas. E até gravam podcasts durante a temporada.

Ter mais acesso do que nunca, no entanto, vem com uma contrapartida: o controle. Nós estamos dentro da vida deles porque eles permitem. E, com isso, também vão decidir o que vamos ver. O acesso oficial vem com um elemento “chapa branca” muito forte. Eis um dos pontos que definem a série da Netflix: quase tudo o que vemos ali tem cara de ter sido autorizado.

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Atletas de bem

“Starting 5” pinta os seus jogadores, em síntese, como “atletas de bem”. Todos eles são íntegros, amam as suas famílias, competem com lealdade e querem vencer. Não quero dizer que não sejam assim, mas é uma imagem sanitarizada. E que também indica, de certa forma, uma falta de ambição. Poucas vezes, a série tenta mostrar algo que vá além do trivial. E, como resultado, torna os seus protagonistas desinteressantes.

Na era do media training, você precisa instigar os jogadores a mostrarem algo diferente. Afinal, se não for assim, eles só vão mostrar o que lhes é conveniente mesmo. Vira um tipo de propaganda. Dá para notar, por exemplo, que LeBron James gostaria de estar mais presente em casa com a família – o que é nobre. No entanto, você sempre tem a impressão de que ele aparece na produção para mostrar isso.

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A verdade é que “Starting 5” falha porque um episódio dos inúmeros podcasts de atletas são mais reveladores do que os seus capítulos. Eles têm mais chances de “fugirem” do script do que a produção da Netflix. E, acima de tudo, saem muito mais barato do que contratar uma equipe de filmagem para acompanhar cinco jogadores ao longo de oito meses.

E o basquete?

Vamos ser sinceros? Quando uma série se propõe a acompanhar cinco atletas da liga em oito ou dez capítulos, está claro que o basquete vai ser uma nota de rodapé. Afinal, esse tempo é minúsculo para resumir uma temporada de 82 jogos e playoffs. É a constatação que você nem precisa assistir para ter. A produção, ao menos, não tem muita vergonha de admitir isso.

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Está bem claro que o acesso à vida pessoal dos jogadores da NBA é a grande sacada de “Starting 5”. Certamente, você ganha vários daqueles vídeos de highlights com batidas animadas e reações intensas de narradores dos EUA. Dos astros da temporada gritando orientações para os companheiros em quadra. Mas isso parece só uma transição para Tyrese Haliburton e a namorada falarem do seu casamento, por exemplo.

A gente pode não gostar, mas essa é uma abordagem possível. E há algum público que se interessa por essas coisas também. Mas nunca se esqueça esses atletas não são a Kim Kardashian. O grande problema é que esse foco na vida pessoal cria uma grande contradição dentro da proposta da série. Afinal, se não é pelo basquete, por que eu deveria acompanhar ou ter interesse nessas pessoas?

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Falta história

“Starting 5” queria seguir a linha de produções da Netflix que fazem sucesso usando os atletas de grandes ligas como protagonistas. A comparação que, a princípio, sempre a acompanhou foi “Quarterback” (NFL). O seu exemplo, no entanto, deveria ser a “Drive to Survive”. É a mais interessante de todas e, aliás, acho que é melhor do que acompanhar a própria temporada da Fórmula 1.

A questão é que “Drive to Survive” tem a visão da competição como o seu maior trunfo. Ela sabe fazer com que a temporada seja uma história e, com isso, os corredores e as suas diferentes personalidades viram personagens. Você torce por um ou outro e, por isso, tudo ganha vida. “Starting 5” não faz isso com os jogadores da NBA, pois o basquete raramente está em foco.

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Então, nós ganhamos uma experiência meio vazia: nunca existe um propósito claro em acompanhar esses jogadores. Ou melhor, até há. Mas não é o que nós gostaríamos: é tudo uma grande promoção de imagem. Há uma constante esforço em convencer-nos que, apesar de ídolos ricos e famosos, são só pessoas normais. Gente como a gente.

The Last Dance

É claro que “Starting 5” foi criada, antes de tudo, pelo acesso sem precedentes a alguns dos principais jogadores da NBA. Mas não é só sobre isso. É impossível não ligar a sua produção, por exemplo, ao sucesso incrível que a Netflix teve com “The Last Dance”. Não por acaso, há pessoas em comum envolvidas nos bastidores de ambos. Era uma tentativa de “surfar na onda”, em particular, em termos de audiência.

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Os resultados, no entanto, são bem diferentes. E isso era previsível.

“The Last Dance” nos oferece o retrato e revelações de um tempo em que acesso era muito mais raro. E, por isso, mais intrigante e valioso. Há um valor histórico em ver algumas das interações de Michael Jordan com companheiros e rivais há 30 anos. Além disso, quem está lá é o melhor jogador da história que surge para comentar a carreira de forma cada vez mais rara.

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É um produto de promoção sobre Jordan, sim, assim como “Starting 5” sobre os seus astros. É mais ambicioso, no entanto, pois torna-se um estudo de personagem sobre MJ também. Não só uma glorificação do ícone, mas também uma discussão sobre os seus métodos. Isso só é possível porque “The Last Dance” tem a mesma metragem de uma temporada da série recém-cancelada para abordar um único atleta.

Exceção

Não há nada tão poderoso em “Starting 5”, certamente, quanto os dois minutos finais do capítulo seis de “The Last Dance”. Ali, Jordan se exalta para fazer uma defesa firme por não se desculpar pela forma como tratou vários dos seus companheiros em campanhas de título. Mas seria injusto dizer que nós temos uma visão controlada de todos os dez jogadores abordados na série.

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Anthony Edwards é a exceção aqui. Mas não para o lado bom. O que vemos do jovem astro do Minnesota Timberwolves é bem preocupante – para não dizer problemático. Vê-lo assistindo a uma partida enquanto uma das duas mulheres diferentes grávidas ao mesmo tempo dele dá à luz a um dos seus filhos é estranho. Assistir aos parentes arrumando as suas malas também não é legal.

Mas a verdade é que, talvez, o maior sinal da falta de noção de Edwards é tudo está no ar. Difícil que a exibição de tudo isso não tenha sido aprovada.

Conclusão

“Starting 5” começou como uma tentativa inovadora de mostrar os jogadores da NBA durante uma temporada. Mas acaba sem deixar saudades em muita gente. O fim sem um anúncio oficial dá uma ideia disso. Afinal, é uma série que nunca teve um público-alvo tão definido assim.

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Ao se distanciar do basquete, a princípio, não parecia ser um produto para iniciados e os fãs do esporte em si. Os torcedores casuais, por sua vez, não costumam ter interesse em consumir produtos “terceirizados” assim. Enquanto isso, é difícil para alguém que não conhece o esporte se importar em conhecer essas pessoas.

Eu acho que há muito valor em ter acesso aos jogadores da NBA, mas “Starting 5” é rasa demais. Faz questão de dar o tratamento mais superficial possível para as figuras incríveis que retrata. Os insights e momentos relevantes que ficam são poucos. Há muito valor em ter esse nível de acesso, mas é preciso saber o que fazer com isso. Infelizmente, a série da Netflix não soube.

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