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A memória descartável

Guilherme Gonçalves destaca o último Fim de Semana das Estrelas

Foi desapontador. O All Star Weekend da NBA é um evento e tanto dentro do mundo dos esportes. Marcado em data e cidade com muita antecedência, altera os planos da comunidade do basquete profissional dos Estados Unidos, aquece a economia local e tem os olhos do mundo voltados para si durante três dias, sempre em fevereiro de cada ano. A lista preliminar de indicados ao Hall da Fama do basquete é anunciada neste final de semana, que geralmente também antecede o prazo final para trocas de atletas na NBA, bem como reúne, em um mesmo ginásio, os melhores jogadores do planeta em diversas ocasiões: da partida entre jovens atletas na sexta à noite, até o All Star Game que encerra o domingo, passando por todos os conhecidos eventos de variadas habilidades no sábado. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas… Foi desapontador. As notícias, os vídeos, as fotos e a percepção dos veículos de comunicação nem sempre vão bater com a reação do público, e foi exatamente o que aconteceu dessa vez, do começo ao término do final de semana, na cultural e inspiradora New Orleans, estado da Louisiana.

O público brasileiro ficou na bronca com a mínima participação de Oscar Schmidt, ex-ala e um dos maiores ídolos do basquete nacional, no Jogo das Celebridades da sexta-feira, 17. Oscar havia sido homenageado dias antes pelo Brooklyn Nets, apesar de nunca ter atuado pela franquia desde sua seleção no Draft de 1984, quando ainda New Jersey era a localidade representada por esse lado de Nova York. Numa ação de marketing realizada entre a NBA, a ESPN Brasil e uma marca americana de cervejas, o camisa 14 faria, então, sua “estreia” na liga – não atuou antes em decorrência de não poder defender a Seleção Brasileira caso fosse profissional nos EUA naquela época. Dois arremessos, duas conversões, poucos minutos, mínimas chances de tocar a bola e muita gritaria dos fãs brasileiros em todos os canais de comunicação da NBA no Brasil na internet. Oscar, que prometia entrar e jogar para ser escolhido como o melhor da partida, não teve nem mesmo a chance de disputar esse troféu, que ficou com Brandon Armstrong, ex-jogador do mesmo Nets, hoje famoso por paródias e imitações de atletas na internet.

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A partida entre calouros e atletas em seu segundo ano na Liga repetiu o interessante formato com dois times mesclados: o americano e o de atletas do restante do mundo. Com uma NBA cada vez mais globalizada, foi possível ver, por exemplo, o letão Kristaps Porzingis junto ao sérvio Nikola Jokic, tendo como MVP da partida o canadense Jamal Murray, companheiro de Jokic no Denver Nuggets. Pelo selecionado ianque, estrelas em ascensão que deverão representar o Team USA em futuros Jogos Olímpicos, como o pivô Karl-Anthony Towns, o ala-armador Devin Booker e o armador D’Angelo Russell. Em termos esportivos, foi o melhor evento da data festiva, e um dos poucos que ainda preserva originalidade, novidades e, mais importante, um pouco de vontade por parte dos atletas.

O sábado chegou e o já citado Porzingis levou o desafio de habilidades, aperitivo para o concurso de cestas de três pontos e para o campeonato de enterradas. Do alto de seus 2,21m de altura, o camisa seis do New York Knicks bateu Gordon Hayward, ala do Utah Jazz, no evento que prometia como favorito o pequeno notável Isaiah Thomas, estrela do Boston Celtics. Pelo segundo ano consecutivo, atletas tidos como big men, ou seja, pivôs ou alas-pivôs, derrotaram os “menores” alas e armadores – o acima citado Towns levou a honraria no ano passado. Para os arremessos de três pontos, prática corriqueira e estilo de jogo predominante na NBA atualmente, a Liga ainda consegue convidar alguns dos especialistas para o desafio. Defendendo seu título em 2016, Klay Thompson, do Golden State Warriors, não chegou nem mesmo à rodada final dessa vez: Kemba Walker, do Charlotte Hornets, Kyrie Irving, do atual campeão Cleveland Cavaliers, e Eric Gordon, do Houston Rockets, foram os finalistas. Após empate em 20 pontos, Irving e Gordon disputaram o desempate com uma nova rodada de arremessos, onde o atleta do Rockets e, até agora, favorito ao prêmio de melhor reserva da temporada sagrou-se campeão com 21 tentos anotados. Nada fora do comum, até então, mas também nada de espetacular.

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Seguindo o protocolo, o famoso campeonato de enterradas teve espaço e prezou pelo que vem fazendo ao longo dos anos: dar chance a atletas mais jovens para aparecer e, quem sabe, brilhar. Faltou brilhar, na verdade. Geralmente, um dos competidores é um pivô alto e forte; outro atleta é um remanescente do campeonato anterior; e os outros dois convidados são jovens muito atléticos. Neste ano e nessa ordem, DeAndre Jordan, do Los Angeles Clippers; o vice-campeão de 2016 Aaron Gordon, do Orlando Magic; e Glenn Robinson III, do Indiana Pacers, e o até então desconhecido Derrick Jones Jr., do Phoenix Suns, provindo da Liga de Desenvolvimento da NBA. Gordon era o franco, claro, máximo favorito: ao lado do bicampeão Zach LaVine, protagonizou o que pode ter sido o melhor Slam Dunk Contest da história, em fevereiro passado, quando poderia facilmente ter ganhado a coroa. Mais uma decepção: Jordan não ofereceu muito e Gordon errou demais em suas ousadas tentativas, uma delas até envolvendo um drone. Robinson e Jones Jr. replicaram versões estendidas de suas enterradas, com a bola passando entre as pernas ou saltando três ou quatro pessoas, entre companheiros de time, mascotes e cheerleaders. Nada de tão novo assim, alguns erros, um misto de decepção e frustração. Deu sono. A inovação e a inspiração não compareceram neste ano, e Robinson, mais metódico e constante, ficou com a primeira posição.

Guardando o melhor – do pior – para o último dia, o Jogo das Estrelas talvez tenha se tornado, para um fã mais experiente de basquete, o evento mais descartável do final de semana. A astronômica pontuação da vitória do time da Conferência Oeste sobre o time da Conferência Leste, por 192 a 182, soa como piada em razão da falta de empenho ou mesmo vontade em proporcionar uma partida mais disputada. Um embate sem marcação, sem organização, com cestas trocadas, e buscando apenas uma exibição de enterradas ou jogadas mais plásticas. Jogo?

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Que jogo? Duas equipes, somadas, podem chegar aos 182 ou mesmo aos 192 pontos numa partida regular: duas equipes, com os melhores atletas do mundo, não deveriam chegar a um placar assim em excelência ao esporte e suas definições por ser uma prática ofensiva, mas também defensiva. Eu confesso a minha desistência em assistir ao jogo pouco depois da mais comentada jogada do embate: bola de Russell Westbrook para Kevin Durant, que devolve um passe no ar e que termina em ponte aérea para a enterrada do número zero do Oklahoma City Thunder. A novela que envolve os dois ex-companheiros desde a saída de Durant para o Golden State Warriors é outra que dá sono, apesar de muito alimentada pela mídia norte-americana a fim de criar uma nova rivalidade que… simplesmente não existe. Nem mesmo existe a rivalidade entre as conferências, notável em embates mais marcados, duros e levados a sério nos anos 1980 e início dos anos 1990, por exemplo.

Anthony Davis, ala-pivô do time da casa, o Pelicans, marcou 52 pontos – dez a mais que o antigo recorde do jogo, de Wilt Chamberlain – e foi o eleito o melhor em quadra. Mas este nem mesmo foi o assunto mais comentado do final de semana das estrelas. Minutos depois da partida finalizada foi confirmada a troca entre a equipe de New Orleans e o Sacramento Kings, que mandou o pivô DeMarcus Cousins para atuar ao lado de Davis em um possível melhor garrafão da NBA. A reação da mídia especializada, da comunidade da Liga e de torcedores foi como rastilho de pólvora: só se falava na compensação recebida pelo time da Califórnia, ou em como Cousins deve adaptar e agregar o seu jogo ao de Davis, ou em como Vlade Divac, gerente-geral em Sacramento, mentiu para o camisa 15 ao negar negociá-lo e o fazer por um pacote tido, até agora, como pouco aproveitável, etc. Falou-se em tudo: menos no All Star Game que acabara de acontecer. Imediatismo ou consideração a um acontecimento de maior porte para o impacto da temporada?

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Claramente, o All Star Weekend é um evento diferenciado e feito para o entretenimento do público. Todavia, o entretenimento do amante da NBA pode – e vai – além de uma mera exibição plástica, sem compromisso com o espetáculo que já é o esporte em si. A tendência do Jogo das Estrelas, em caso de nenhuma mudança, é simplesmente apresentar placares altos, sem qualquer disputa, onde haverá apenas uma briga interna em cada time para sagrar-se MVP da partida para que se conste nos autos da história. Para quem esperou um ano inteiro por uma nova oportunidade de se impressionar, o evento deste final de semana decepcionou. Pela promoção em torno da estreia de Oscar, passando pelas exceções no jogo dos calouros e no torneio de três pontos, chegando ao fraco campeonato de enterradas e fechado com “chave de ouro” pelo All Star Game: vários outros finais de semana da temporada regular, com jogos equilibrados, disputas acirradas e limites superados têm mais energia, resultados e espetáculo traduzido pelo jogo em si, ainda que sem todas as luzes, fogos e pompas instalados como nesse final de semana em New Orleans. Foi desapontador, infelizmente. Melhor esperar por 2018 e torcer por outro final de semana que traga mais e melhores lembranças do que as deixadas nessa oportunidade.

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