Passividade, alegria nas pernas e o quadro do Los Angeles Lakers
Entre erros e acertos, seleção brasileira trouxe esperança ao torcedor
Eu não queria escrever nada sobre futebol aqui, pois o foco é mesmo o basquete. Até pretendia tocar em um dos assuntos mais relevantes da última semana na NBA: a formação do novo elenco do Los Angeles Lakers, mas tem um quadro sobre o time. Mais tarde sai sobre o que rendeu o elenco. E falando em resultado, com mais calma, é possível pensar de uma forma mais lúcida hoje.
Aqui, segue sendo um site de NBA, mas sempre sinto a vontade de escrever sobre outros esportes. Já pensamos em fazer muito de futebol, teve futebol americano na última temporada. Então, é o seguinte:
A gente perdeu a alegria nas pernas. O povo confunde muito as coisas. Você pode ter sido um grande jogador, seja lá de qual esporte for, mas se não estiver bem fisicamente, é hora de cuidar ou parar. Decisões ruins acontecem o tempo todo, mas quando o cara prefere outras coisas além de ser profissional, aí é o fim.
O elenco que o Brasil levou para a Copa poderia ser muito melhor, mas as várias ausências por lesões criaram um fato novo: a convocação de Neymar. Até então, ele não era um candidato real a jogar seu quarto mundial. Havia, sim, a esperança de que ele pudesse chegar ao Santos e tornar-se inquestionável. Não foi.
Mas, mesmo assim, aquela pressão por sua ida parecia fora da realidade. Como eu torci para que ele chegasse perto da Copa em grande nível físico e técnico. Não aconteceu em momento algum. No entanto, ainda havia o sonho.
Quando você tem um time que não depende mais de um jogador, é porque já houve a quebra de um ciclo. Claro, pode admirar o cara pelo que ele foi, mas só vai se tiver reais condições de jogar.
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Por menos, Romário não foi para a Copa de 98. É óbvio que as lesões eram diferentes, mas Romário não vinha sendo um problema em campo até então. Ele entrava e resolvia. Só que, por prudência, a comissão técnica avaliou que não seria o ideal levar o cara que brilhou no mundial anterior.
Meio que lembra o que houve com Zico, antes de 86. Assim como Neymar, ele não tinha tantas condições de jogar o que poderia. Mas, um ano depois, desfilou nos gramados, na atual idade de Neymar (34 anos).
Ao mesmo tempo, havia motivo para pensar o contrário. Na verdade, motivos. Primeiro, eram 26 jogadores, contra 22 nos tempos de Zico e Romário. Além disso, a atual Copa tinha uma fase a mais, então dava para pensar em sua pronta recuperação.
Ao contrário de Romário e Zico, Neymar não tem condição física de seguir jogando por muito tempo. Enquanto o primeiro parou aos 43 anos, Zico foi até os 41, no Japão. Aos 34, Neymar parece muito mais perto de uma aposentadoria do que ter motivos para estar na Copa.
É sobre ter alegria nas pernas. É sobre ter condições para tal. Ele, simplesmente, não tinha. E o pior: foi para os EUA, mesmo que não jogasse em nível minimamente aceitável nos últimos quatro anos.
Jorge Jesus avisou
Veja: entre 2023 e 2025, quando esteve no Al Hilal, ele fez só sete jogos. Foram 17 meses de fisioterapia, pois machucou gravemente o joelho pela seleção. Quando voltou aos treinos, Jorge Jesus, seu então técnico, disse que não havia mais condições. Neymar não era nem perto do que foi.
Claro que o jogador ficou chateado, mas foi alguém que escancarou a realidade. E, cá entre nós, quando vários de seus colegas brilham na casa dos 40 e ele não consegue mais acompanhar o ritmo, é frustrante.
Calma…
Certa vez, aqui mesmo, eu o comparei com Kyrie Irving. Afinal, ambos deixaram o melhor jogador de seu esporte para tentarem o protagonismo. Muita gente achou que eu só estava escrevendo aquilo por causa de política.
E, vamos estabelecer uma coisa aqui: eu sempre fui fã de Neymar e não me importo em quem ele vota, quem ele namora, se ele trai, se ele compra uma mansão ou se joga pôquer até de madrugada. Não dou a mínima. É a mesma coisa com Romário, Ronaldo, Zico, seja lá quem for. Sempre vou torcer pelo que está ali, em campo.
Esse papo de querer misturar as coisas fora do esporte não é comigo. É só chato.
Então, desde que voltou ao Santos, houve um esforço por parte dele para estar em campo. Foram 43 jogos e 16 gols, um grande avanço pelo que houve na passagem pelo Al Hilal. No entanto, boa parte das partidas foram de “brilharecos”. Aparecia aqui, ali, mas não havia uma sequência.
Mas, quando tantos jogadores se machucam perto da Copa, com a possibilidade de voltar aos campos na segunda ou na terceira rodada após mais uma lesão, lá foi ele para o seu quarto mundial. Para ele estar ali, Carlo Ancelotti deixou gente de fora que poderia contribuir mais. Só que ainda havia a esperança.
Ciclo horrível
Quatro técnicos em menos de quatro anos, uma espera eterna por Ancelotti e poucos motivos para sorrir. Foi o que aconteceu no ciclo. Trocou presidente, treinador e nada. Nada funcionou e o Brasil teve a sua pior classificação em eliminatórias em sua história, com um modesto quinto lugar.
Estava claro que o Brasil não iria tão longe, mas era Ancelotti que estava ali, certo? No entanto, a gente sabia que não tinha peças para vencer.
Só que a gente se ilude fácil.
Convocação midiática, jogos de preparação com vitórias e… mais lesões. Perder um lateral como Wesley, para uma seleção que carece muito de boas opções no setor, foi terrível. E sabe o que mais foi péssimo? Não ter convocado um lateral de ofício para ser seu reserva. Afinal, Danilo foi como zagueiro.
Então, havia mais uma chance de convocar alguém para o seu lugar. Mas Ancelotti optou por um meia/volante: Éderson.
Quando Ibanez, um zagueiro por toda a carreira, começa o jogo contra Marrocos, já deu para ver que não daria certo. Pronto, se já não havia um reserva de fato, agora teria de usar Danilo na função mais uma vez.
Mais lesões
E nada contra Danilo, que fez uma boa Copa até a primeira fase. Mas ali, o Brasil já não tinha mais 26 jogadores. Ibanez não voltaria a jogar nem se Danilo se machucasse.
No mesmo jogo, Igor Thiago foi sacado e ficou claro que também não voltaria. Caiu para 24. Então, Luiz Henrique, que saiu daqui como um possível titular, faz 40 minutos contra Marrocos e não volta mais. Já estamos em 23.
Depois, Raphinha e Paquetá se machucaram.
O Brasil vence o Japão jogando bem, apesar de perder mais um jogador. Lembre-se: Militão, Rodrygo, Estevão, Wesley, Raphinha, Paquetá. Veja quantos titulares foram caindo.
Em um ciclo atrapalhado, com tantas peças fora, o time enfrenta a Noruega com o que tem.
E a opção de Ancelotti por Martinelli foi excelente, pois ele fez jogadas em dupla com Vini Jr, cobriu espaços e articulou. Não foi um problema, nem de longe, apesar de não ser sua posição favorita.
Durante muito tempo, o Brasil acumulou falhas no ataque, mas estava chegando. Claro que a passividade irritava, mas Rayan, lá pela direita, voltava para marcar e a Noruega não fazia nada pelas pontas.
Mexidas ruins
Endrick entrou, perdeu uma chance clara, mas estava dando sufoco no adversário. Aqui, era para ser mantido onde estava. Até Vini apareceu mais.
Mas quando Ancelotti saca Rayan e Martinelli, tudo perde o controle. Neymar tenta monopolizar jogadas e pouco se conecta com Vini, enquanto Endrick fica tão isolado quanto Luiz Henrique ficou contra Marrocos na direita.
E sem combate de Vini, Neymar e Endrick, aí que a Noruega achou seus espaços e gastou a chuteira de tantos passes que deu. Encontraram nas pontas após mexida do técnico, quando sacou Sorloth e Nusa. Sem Rayan pela direita, os noruegueses fizeram a festa contra um Danilo desgastado e um Éderson perdido.
Sem proteção no meio, sem coberturas nas pontas, a Noruega venceu. Dois gols de Haaland. Fáceis, aliás. Foi como se ele estivesse treinando, fora a facilidade que ele encontrou contra Gabriel Magalhães, que vinha fazendo ótima Copa.
O Brasil foi exposto.
Ainda houve tempo de fazer um gol, de pênalti. Neymar, sem a urgência que o momento pedia, foi bater boca com o goleiro. Sem necessidade, um fim melancólico.
E o pênalti do Bruno Guimarães?
Claro, eu tinha de deixar o melhor para o fim. Afinal, por que o grande nome da seleção, Vini Jr, não bateu?
Aí, é algo simples. Para evitar falácias como “Roberto Carlos ficou ajeitando a meia ao invés de marcar Henry”, sendo que a jogada era aquela ali, com o lateral quase fora da grande área para puxar o contra-ataque.
Ou, ainda, aquela de que Ronaldo não teve nada e o Brasil vendeu a Copa para a França em 98. Sendo que o patrocinador da CBF era a Nike, da FIFA era a Adidas e não havia motivo algum para imaginar isso. Mas, o velho e-mail do “Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas”.
Coisas que nunca foram fatos.
Então, Bruno Guimarães bateu e perdeu.
Só que existe uma coisa no trabalho de qualquer um: hierarquia. Você soma isso a como Vini Jr é, com sua personalidade, jamais seria diferente.
Ele não é Neymar, Romário ou Ronaldo, que pegariam a bola e bateriam o pênalti. Imagine se ele o fizesse e perdesse.
Treino é treino, jogo é jogo
Uma coisa é o que acontece nos treinos, sem pressão. Outra, é com torcida, em uma fase aguda da Copa do Mundo.
Bruno Guimarães bateu, pois vinha bem nos treinos no quesito, como disse Vini Jr, após o jogo. Isso significa que ele não era batedor. Ancelotti citou cinco nomes como cobradores e Vini não era um deles.
Ou seja, isso foi feito nos treinos.
A nossa torcida era para que ele fosse um ótimo batedor. Infelizmente, não é. Na carreira, tem 68% de aproveitamento. É pouco para chegar na seleção e cuidar da cobrança.
O quadro

Reprodução / X
Aqui, no quadro do Los Angeles Lakers de 2013, tem um claro exemplo disso: jogadores cobrando lances livres em treinamentos e, do lado, o que eles fizeram em jogos até aquele momento da temporada.
Percebeu como tem uma diferença brusca? Não importa o esporte, treino é treino, jogo é jogo. Odeio clichê, mas Didi, o “Folha Seca”, disse algo real. Toda a pressão que existe em campo, em quadra, é muito diferente do que acontece em treinos.
Não notou que Bruno Guimarães estava nervoso? Pois é.
Embora tenha parecido uma desculpa de Ancelotti, ele estava certo. O técnico errou várias vezes em substituições, mas ele sabia o que estava fazendo.
Bruno Guimarães sai após fazer uma excelente Copa, mas com um pênalti decisivo perdido. O Brasil, enquanto isso, despede-se de Neymar, um craque que prometeu muito e ficou por ali mesmo, exceto o ouro olímpico em 2016.
Mas, a sensação é terrível. É a de que o Brasil poderia ir mais longe e não foi por causa de um pênalti. Acredite: não foi só por isso.
Por um ciclo completo e paz para Ancelotti trabalhar.
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