A cultura estadunidense opera a partir da lógica de transformar absolutamente tudo em mercadoria, e com os seus esportes não é diferente. A NBA é um produto cujo único objetivo é garantir cada vez mais espectadores, mas precisa de um rei. Isso permite que a competição arrecade mais dinheiro com transmissão, camisas e patrocínios e, para isso, precisa manter o entretenimento acalorado por meio de suas estrelas.
Mas, neste momento, a NBA passa por uma fase delicada, e não é por falta de astros. Ao contrário: se olharmos o cartel de jogadores atuais, podemos afirmar que estamos diante de uma das melhores gerações que o esporte já viu. Acha que estou exagerando? Temos Nikola Jokic, Giannis Antetokounmpo, Victor Wembanyama, Anthony Edwards, Jayson Tatum, os próprios LeBron James e Stephen Curry, além de uma penca de franchise players que muito provavelmente estarão no Hall da Fama ao final de suas carreiras.
O problema é que, para furar a bolha e alcançar camadas mais populosas da sociedade mundial, é preciso transformar uma superestrela em um super pop global e, nesse processo, não basta jogar no mais alto nível técnico. É preciso unir habilidade, carisma, comprometimento e, o mais importante, cidadania americana.
Esse último ponto é um dos grandes fatores que ajudam a explicar a crise de “identidade” enfrentada pela liga. Para expandir novos horizontes, é preciso primeiro que o público interno compre a ideia. Mas como fazer isso se, nos últimos sete anos, o prêmio de MVP, aquele dado ao jogador mais valioso da NBA, foi parar nas mãos de atletas estrangeiros?
O último jogador que nasceu nos EUA a vencer a honraria foi James Harden, em 2017/18, e, apesar de seguir jogando muito bem, está longe de ser o grande rosto que a liga procura.
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Os candidatos, ao longo dos anos, ao cargo de “príncipe”, aquele que sucederá o rei da NBA, foram muitos, mas nenhum conseguiu se estabelecer de fato. Ja Morant, há pouco tempo, era visto como um grande nome: carismático, atlético, empolgante e americano. Mas os problemas extraquadra enterraram de vez qualquer plano nesse sentido. Anthony Edwards também se mostrou promissor, mas faltou hype em torno do garoto, assim como acontece com o armador do New York Knicks, Jalen Brunson.
O mais perto que a NBA chegou de reunir todos esses elementos e finalmente estabelecer um rosto para o mundo foi com o atual MVP de nome complicado, Shai Gilgeous-Alexander. O jovem armador do Thunder é tecnicamente muito avançado, tem um jogo empolgante, já foi campeão da liga, mas nasceu no país vizinho, o Canadá. Será que a ideia do presidente Donald Trump de anexar o país ao gigante norte-americano surgiu de um lobby desesperado de Adam Silver para resolver essa questão? Nós nunca vamos saber.
UFC e o dilema
Mas fica a dúvida: para um produto norte-americano crescer e conquistar novos públicos ao redor do planeta, é indispensável contar com uma estrela estadunidense para impulsionar esse movimento? No caso da NBA, o histórico indica que sim. O UFC, outra empresa americana e com o mesmo problema — pela primeira vez em sua história não conta com um campeão americano em seu cartel —, vive um de seus melhores momentos de expansão e acabou de fechar um contrato bilionário com a Paramount. Mas ali o esporte é outro, já muito bem estabelecido na Europa e na América do Sul, o que torna essa penetração bem mais aceitável.
No fim das contas, a NBA segue presa a um dilema que ela mesma ajudou a criar com um “rei”. Transformou o basquete em espetáculo global, mas ainda depende de símbolos nacionais para sustentar sua narrativa interna. Enquanto o jogo seguir evoluindo e os melhores jogadores do mundo seguirem vindo de fora, a organização terá que decidir se quer vender excelência ou identidade, porque, cada vez mais, parece difícil continuar fingindo que dá para ter os dois ao mesmo tempo.
Por Giovanni Paoli
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Fonte: Reprodução / X

